O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020) ☆☆☆



    Ano da Morte de Ricardo Reis (2020) de João Botelho: um hino à comunidade académica; uma homenagem aos amigos, ao amigo cúmplice; um rasgo de confiança à maçonaria; uma ode às elites, aos intelectuais, ao conhecimento cientifico. Este filme português está nas salas de cinema mas não está só: à data do inicio deste artigo estava também o Listen de Ana Rocha de Sousa. Hoje o Amor Fati da Cláudia Varejão.


      Quem? Mas quem? Quem vai à sala de cinema ver este filme português? Mas quem partilha a beleza deste filme com o olhar cúmplice que merece? Com as palavras que lhe assentam? Quem? Mas quem tem a coragem de ir ver este filme sobre a amizade? Que massa critica é essa que há? Quem são os descontentes com o sucessivo desapoio à arte pela arte? Quem luta por 1% do OE para a cultura? Estas perguntas desconcertantes são lançadas assim e numa primeira instância à minha analise ao filme.



«a morte saiu a rua num dia assim» (Zeca Afonso)



    Está em sala de cinema, não um filme português, mas dois ou três. Comum nos dias de hoje. Chamasse O Ano da Morte de Ricardo Reis, uma adaptação de João Botelho ao livro do mesmo nome de José Saramago, cujo o protagonista é o heterónimo Ricardo Reis de Fernando Pessoa, interpretado por Chico Diaz. Este filme não é propriamente de entretenimento, por isso haja coragem para o ver, sozinho, com a cara metade ou desafiando o amigo mais cúmplice. O ano da morte de Ricardo Reis, de facto não procura agradar à maioria do público mas com certeza que luta por mais espectadores, que anseia toda uma massa critica à semelhança de outros filmes do mesmo realizador. A meia dúzia de pessoas que gera em qualquer sessão pelo país fora, fará com certeza a diferença que se quer e é de certo objectivo pessoal de João Botelho enquanto realizador, não a meia dúzia de pessoas, que já é significativo mas a massa critica que daí advém de coisas bem pertinentes como injustiças sociais e de classes. No caso do espectador comum, que se identifica com o cinema industrial feito a pensar em brutais receitas de bilheteira - chamado cinema mainstream - o máximo que este filme pode provocar são náuseas por seguirmos diálogos, por vezes longos em planos fechados onde o olhar não tem outra opção que seguir a velha amizade, no caso entre o criador e criatura, isto é, Fernando Pessoa e o seu heterónimo Ricardo Reis, como se a morte saísse à rua num dia assim, pois a «metafisica encontra finalmente a física», entre a não existência de Ricardo Reis, e porque à data da acção do filme Fernando Pessoa já não estaria vivo. Ricardo Reis, nas mãos do Pessoa não tinha data da sua morte nem voltara do Brasil, José Saramago trouxe-o do Brasil onde estivera exilado 16 anos. A Trama acontece no ano de 1936, ano fortemente marcado pelo nazismo de Hitler, pelo fascismo de Mussolini e pela guerra civil espanhola mas que em Lisboa por entre alguma miséria vivia-se bem por entre copos, a bela Vitória Guerra e mulheres. O filme maioritariamente a preto e branco, subgénero de Film-Noir, apesar de escuro está perfeitamente iluminado, os rostos e os lugares. No fundo uma relativa continuidade ao desenvolvido no filme desassossego, dentro da habitual limitação do cinema português. 
    Este filme pode oferecer a possibilidade de se criar outro rumo para o cinema português, nomeadamente no que à distribuição diz respeito e por muito ilusório que seja acreditar nisto. O cinema de Hollywood e o cinema de estúdio estão fragilizados perante casos isolados do cinema português que está vivo e recomenda-se. Cabe não só ao ego dos realizadores e ao bom-senso do poder soberano mas sobretudo da comunicação social. O cinema português regra geral nunca viveu de bilheteira, essa é a premissa muitas vezes utilizada por quem conhece o cinema por fora e de como deveria ser o cinema português. Foram anos a fio a financiar os filmes às mesmas pessoas, que apesar de serem reconhecidos no estrangeiro poucas pessoas viram os filmes. Talvez um dia o cinema português viva de bilheteira quando houver incentivos fiscais às pessoas que pagam para ir ao cinema e para os levar os filmes para casa e para as instituições. 

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