"O Barqueiro" 2026 Filme de Simão Cayatte ☆☆☆

Ser realizador de um filme em Portugal, para além de ser necessário conhecimento em fotografia, som e montagem, é também imprescindível noções de psicologia, sociologia, antropologia, filosofia, direito etc. O aspirante a cineasta tem a vida difícil, pois mais fácil será não fazer um filme ao invés de obter conhecimentos na arte especifica que é a sétima arte, uma arte que engloba tudo. Sendo que o mais importante é a produção em si, Simão Cayette está de parabéns, por concluir uma longa metragem que vale todo o "cêntimo investido"... "O Barqueiro" acompanha Joaquim, um ex-presidiário que quer integrar-se na sociedade, mas que procura trabalho na clandestinidade da apanha de ameijoa nas perigosas margens do rio Tejo, onde se encontra uma gigantesca comunidade de trabalhadores tailandeses e precários. Joaquim é interpretado com distinção por Romeo Runa, mas há outros papeis de relevo para um elenco de reconhecido valor no cinema português: Miguel Borges e Sandra Faleiro. 
Simão Cayette revela a cada passo - num par deles - "precisão" no seu próprio trilho que faz no cinema. O filme tem assertividade, tem qualidade e muito cuidado. Assenta numa tragédia, mas positiva, que não estou acostumado a ver no cinema português. Com tudo isso que "O Barqueiro" desmitifica a ideia de que o cinema português está a anos luz da qualidade estética que se encontra no cinema americano, mas também francês, inglês e até alemão ou italiano, pois o rigor que se encontra no filme, eleva-o ao patamar do que se pode considerar um bom filme por excelência. 

Sirät (2025, Óliver Laxe)

Sirät. Sirät é um filme espanhol, nomeado pela academia de cinema de Hollywood ao óscar de melhor filme estrangeiro. Sirät é uma palavra árabe que significa uma ponte estreita que liga o inferno ao paraíso. Uma ponte tão fina como um pente e tão afiada como uma espada. Adjetivei o filme de inacreditável e insano. Nos dias seguintes ao ver o filme, a tempestade Kristin abalou o centro litoral e não mais tirei estas duas palavras do pensamento. Se por um lado a tempestade e o cinema nada têm de comum, por outro lado a força da natureza e o poder do filme podem aliar-se na consciencialização de que a terra continuará a tremer e que nós humanos somos meros mortais.

O filme atravessa o longínquo deserto do Sahara, onde se realiza inúmeras "raves" de musica eletrônica, em busca de uma filha que o pai não vê há muito tempo. Sirät além de ser um filme sobre musica e a sua capacidade de proporcionar a dança, como meio de transcendência, é um filme limite. Um filme que explora os limites físicos e psicológicos do comum dos mortais numa estrada - ainda que simbolicamente - onde o filme se insere e que parece não ter fim. A genialidade reside sobretudo na concepção criada pelo espetador acerca do filme e que certamente é defraudada com o desenrolar, pois o filme revela-se verdadeiramente surpreendente. Uma obra cinematográfica singular e original.



Ensaio crítico - Escola do cinema

 Em Itália no pós-guerra, cinema tornou-se o principal motor económico das ruas e das cidades. Nos Estados Unidos, cinema continua initerruptamente como a quarta maior indústria. Na Rússia, desde que a revolução industrial se consolidou, que cinema é parte integrante das escolas. A escola de cinema na Rússia é célere, de uma importância inigualável e inegável. É, portanto, legitimo pensar em cinema como uma ideologia capaz de derrubar um inimigo desinteressado, mas que financia a própria ideia de cinema através do contribuinte.

Se, cinema, fosse uma ideia de amor, que os puristas acreditarão, então a arma que é o cinema estaria ao alcance apenas de alguns predestinados e nós, espetadores, estaríamos sigilados a perspectivas sensíveis, muitas vezes transloucadas da nossa realidade e alheias à nossa existência Continuando, certamente, de sorriso amarelo em algumas adversidades. É, portanto, legitimo pensar em cinema como uma arma capaz de destronar o maior dos inimigos a mediocridade mas também governos e a comunicação social.

Recuso com isto, uma ideia de cineasta enquanto profissão. Cineasta é um psicólogo que recusa a profissão. Mantém o sonho "lá em cima", mesmo para quem jovem se sentiu impossibilidade de o perseguir. Talvez enquanto realizador de televisão e publicidade, haja o reconhecimento profissional, mas não um cineasta que é sociólogo, marceneiro, pintor, escritor. Um cineasta lida com a opinião pública e a mediocridade, mas mantém a resistência no ser e no pensar, dando ferramentas aos seres imorais para uma nova forma de sentir, que é alheia à opinião pública, mas próprio da sétima arte. O cineasta é bombardeado todos os dias com o que ousa afirmar, ao contrario de uma profissão que procura estabilidade. Cineasta é uma atitude de resistência ao pré-estabelecido. 

Onde há guerras, há falta de empatia, onde o mais fraco não pode dar sinais de fragilidade, onde se inferioriza o próximo para se ser alguém, as mascaras de mil homens corroem o juízo publico. Apesar de moderado, as Realidades alternativas que saem do punho e do nervo do cineasta poderão ser imprescindíveis, quando é escasso a sensatez e o bom senso.


Lágrimas e Suspiros (Ingmar Bergman, 1972) ☆☆☆☆

    O dramaturgo francês Antonin Artaud numa conhecida emissão de rádio afirmou que o Homem é, por excelência, um animal erótico. Décadas mais tarde, o realizador sueco Ingmar Bergman viria a executar "Lágrimas e Suspiros" (1972), filme cujo o realismo desse estranho sentimento de sedução se apoderou, ainda que de forma sublime, no seio de uma família burguesa do séc. XIX, pois quando foi diagnosticado um cancro em estado avançado em Agnes, umas das três irmãs protagonistas, as relações humanas foram alteradas profundamente.  

    Ao contrario de uma estrutura da narrativa clássica, onde surgem conflitos e consequentes resoluções, o desfecho deste filme é provavelmente o enunciado, mesmo quando a morte se aproxima o erotismo manifesta-se esplendorosamente. Sem distrações, nem fugas para o supérfluo, o filme foca-se no humanismo perante situações extremas como a dor e a solidão, mas também na questão estética que rodeia o filme, dando luz e cor a cenas simplesmente sombrias e "incolores".

    A determinada altura da vida achei que começara a perceber de filmes, então seria necessário encontrar uma forma plausível de chegar ao próximo filme. Através dos clubes de vídeo, encontrei um lugar de encontro de ideias, onde a principal motivação é o cinema e onde conheci as cinematografias do mundo. Desde logo percebi que Ingmar Bergman é um nome incontornável no cinema europeu, até porque escolher um filme com base em características distintas como a direção de arte e a fotografia, que garantem ao espetador beleza e satisfação, logo chegamos à filmografia de Bergman que sempre se destacou pela sua estética. Além da originalidade das historias, a simplicidade implícita em cada uma delas revela enorme talento de um dos cineastas mais constantes e respeitados junto da critica internacional.

    "Lágrimas e Suspiros" (1972) conta com a atriz Liv Ullman, presença recorrente nos filmes de Ingmar Bergman e está disponível para visualização no streaming do canal TVCINE+.

Análise ao Filme de Luís Filipe Rocha ☆☆☆

Análise poética ao Filme de Luís Filipe Rocha

"Cinzento e Negro" (2015)

    O mar é o foco. "Cinzento e Negro" é um filme diferente da generalidade no cinema português, pois é um tipo de cinema que olha o mar como personagem principal. Ainda que de forma discreta, a presença do mar tem sido caracteristica comum na maioria do cinema português desde que em 1929 Leitão de Barros realizou "Nazaré, Praia de Pescadores". Daí em diante é possível extrair beleza na contemplação e bem-estar na relação entre cinema e mar. Em "Cinzento e Negro" e paralelamente à narrativa que se revela atraente e verdadeiramente surpreendente, pois o filme desenrola-se de forma original e tão pouco convencional, há lugar à verdade na magnifica paisagem dos Açores onde o filme é rodado.

    Ainda que simbolicamente, "Cinzento e Negro" reflete um livro que ocupa os antípodas da mente, é o ser-se culto em ir e voltar. Olhar o mar. Ter, não apenas ser, no cinema um lugar exclusivo da lógica, da razão, da verdade cinematográfica, a mais nobre produção, pura e não material. Não só pela beleza da arte como da vida, a própria oleosidade dos atores desperta o mais recôndito espetador, numa narrativa que se desenvolve de forma caótica e decadente, como se tratasse de uma história entre assassino e o seu psiquiatra.

    "Cinzento e Negro" é um filme de Luís Filipe Rocha, data de 2015 e está disponível para visualização na plataforma RTP PLAY.


Porto, Outubro 2024

IG2024

Race To Glory (2024) ☆☆☆

    

   "Race to Glory" trouxe de novo a emoção do desporto automóvel ao cinema, apenas um ano depois de "Ferrari" (2023), cujo o teor de cariz biográfico sobre o fundador da marca italiana se torna veículo para a presença na fórmula 1 e na mítica prova de Mille Miglia. 
   Se para a crítica especializada "Ferrari" (2023) é a melhor experiência de corridas no cinema até então, "Race to Glory" trás à baila a questão da competitividade tão presente no cinema como no desporto, pois o filme reclama que quer ser o melhor simulador cinematográfico de corridas automóveis, funcionando como uma extensão realista da prova, preenchendo uma lacuna existente no rali entre as equipas e público com recurso ao cinema. 
   "Race to Glory" especializou-se no concreto, isto é, um filme sobre o mundial de ralis do ano de 1983. Assim, os técnicos de áudio souberam recolher os sons com todo o realismo possivel contribuindo para uma experiência plena sem precedentes. 
   Em 2010 o documentário sobre o piloto Ayrton Senna intitulado "Senna" sensibilizou simultaneamente fãs do desporto e fãs de cinema num único campo unitário, por outras palavras, adeptos do piloto brasileiro que adoram o filme e amantes de cinema que passaram a admirar Senna. Na minha opinião, "Race to Glory" reclama o mesmo estado igualitário, dada a ousadia em distribuir pelo mundo inteiro um filme tão concreto, mas de inegável qualidade técnica. Ao contrário dos dois filmes citados ("Ferrari" e "Senna"), "Race to Glory" não é sobre fórmula 1 mas sobre o campeonato do mundo de ralis e especificamente no ano de 1983, cujo o campeonato tendia para o domínio absoluto da AUDI com o sistema inovador de tracção às "QUATTRO" rodas; e para a ambiciosa equipa da Lancia que depositava todas as esperanças no famoso modelo 037 mas que tinha tração às duas rodas motrizes. O resto também é história automóvel, e como em todas as modalidades, o público muito contribuiu.

Daaaaaalí ! (2023) ☆☆☆

    Salvador Dali ao contrário de Van Gogh que apenas se tornou célere pós morte, Dalí viveu da sua arte, contribuindo para o génio. O cunho surrealista que sempre impregnou na arte e a excentricidade fiel a si mesmo, fazem dele um artista verdadeiramente admirado. 
    2023 trouxe de novo o mestre Dalí ao habitat de onde é natural, ao cinema, além de "Daaaaaalí !", "Daliland" - que ainda se aguarda estreia nacional - trouxe o nome Dalí ao grande ecrã. Ambos reacendem a enigmática curiosidade de quem persiste em envolver-se na matéria do surrealismo. "Daliland" promete ser mais preciso e incisivo na altura em que o artista, a viver nos Estados Unidos da América, assinava a pintura com o anagrama Avida Dollars - ora fugido de Franco, ora Estados Unidos da América como terra de oportunidades. "Daaaaaalí !" é fruto da ambição em se fazer, exclusivamente, uma obra de arte cinematográfica, isto é , ambição de se fazer um filme atraente para os sentidos, um filme onde a estética visual se sobrepõe ao rigor narrativo, mas também onde transcende do ecrã a verdadeira personalidade do artista, que como qualquer vulgo humano está susceptível a crises de identidade e existência. Para que um filme seja objecto artístico de valor, e exequível, é necessário tempo para o desenvolvimento e como se trata de um filme biográfico é preciso pesquisa. É portanto necessário condições favoráveis que nem sempre são possíveis de atingir, no entanto, a passividade mora em "Daaaaaalí !" como em qualquer bom filme de arte. O humor característico em Salvador Dali está representado no filme em exagero como uma forma de caricatura numa linha de tempo tão complexa como a própria estrutura do movimento surrealista. Tentar decifrar a continuidade de um filme fragmentado próprio do surrealismo, é tentar decifrar o próprio movimento, estando-se sujeito ao ridículo em prol de sentido muitas vezes inexistente. O sonho onde o filme habita é a imaginação: a razão dá lugar à intuição e não se acaba na teoria da psicanálise, termo intimamente ligado ao surrealismo, mas "Daaaaaalí!" não se finda na relação com o pai, no prazer do bebé, nem na sexualidade, mas sim na infinidade conceptual de sonho como lugar imaginativo, livre da amarra da ordem dominante. Não é só no velho cinema que existe o cliché cinematográfico de um filme dentro de um filme [Definição demasiado boa para classificar um filme] "Daaaaaalí!" é um sucessivo sonho dentro de um sonho de inúmeras personagens que fazem delas próprias. 
    ...É bonita a roda viva da imaginação. Não é se não o único caminho possível à dissolução da imaginação na realidade sempre mais austera do que no cinema.



Perfect Days (Wim Wenders, 2023) ☆☆☆☆☆


      Esperar por Dezembro (2023) na certeza de querer ver o novo filme do conceituado realizador Wim Wenders e estar perante o melhor filme do ano - que apesar de estar no circuito comercial, por mérito próprio - tem um ponto de vista de autor, que o torna entusiasmante e visualmente atraente.
   Dias Perfeitos é uma ode à rotina, ao melhor de cada rotina, que fruí na paixão de quem ama a sua profissão e que, no filme, fluí na expectante cidade de Tokyo, cujo o protagonista, um homem de meia idade lava casas de banho. Tudo o que o realizador habituou a quem gosta dos seus filmes, a exemplo "Lisbon Story" (1995), está consolidado em Perfect Days, com vertiginosas descargas emocionais nas poucas palavras transportadas pelos personagens;
    À imagem do realizador, o protagonista, um homem paternalista cumpre o sonho de viver a vida, dedicando-se à sua profissão, no fundo, um homem que aprendeu a ser feliz com o que tem e que por sua vez se torna suscetível de ser inspirador para os outros.  O papel da música e da arquitetura desempenham, tal como a fotografia e a montagem, um papel decisivo no filme como arte - muitas vezes há coisas que não se explicam, sentem-se. É nessa "solitude" que convive a realidade de cada um, sobretudo do realizador, que de certa forma, propõe o mesmo ao espetador. Nesse "fosso" podemos refletir e fazer as nossas próprias escolhas. Wim Wenders recorreu a clássicos criteriosamente selecionados, como por exemplo “Another Brick in the wall" dos Pink Floyd, para propor uma filosofia bem resolvida, tal como as linhas das ruas e dos edifícios, a arquitetura é parte integrante da narrativa, convidando o espetador à imersão. Tudo o que se pode querer do cinema como fonte de escapismo, de fuga à realidade, apetecível ao comum dos mortais, está em Perfect Days de forma portentosa, digo.

IG24

In Vallis Longus
Ass.: Ivan Josué 05.02

Via Norte (2024) ☆☆☆

  Existem dois tipos de crítica, a crítica que serve para promover um filme - não menos meritório - e a crítica que serve para complementar um filme com uma frase, um pensamento, etc. Seja pela estética do filme "Via Norte", seja pela originalidade, gosto de filmes que estejam próximos da comunidade e isso acontece de forma genuína neste filme. Um documentário sobre pessoas que estão longe dos lugares que as viram nascer, contudo, um documentário, também ele sujeito ao fatalismo dos intervenientes perceberem a presença da camara de filmar, o que o torna subtil e suficientemente entusiasmante com estórias de amor por carros, e do romance dos emigrantes portugueses, num filme de viagem, de pouca estrada, mas com paragens categoricamente encenadas.

 O realizador Paulo sem medos, ousou fazer algo novo, mesmo não o sendo, por isso identitário sem receio que se pareça com outro filme. O despretensiosíssimo do filme leva-o no melhor caminho possível, o seu caminho. Para isso é preciso debate-lo: perceber todas as ambivalências, dispensando vanglorias ao ego que o realizador se sujeitava caso o filme fosse atrás de prémios.

  Produções como esta pouco convencional, cujo as ideias tendem sempre a sobrepor-se aos meios, são importantes e merecem ser apoiadas. Se as pessoas não procuram este tipo de filmes e não vão ao cinema, importa saber que é imprescindível que se faça.

IG2024

In Vallis Longus
Assinado Ivan Josué 31.01




Não Sou Nada (2023) ☆☆

        Não vamos esperar mundos e fundos de um filme português, afinal não se trata de um filme espanhol baseado em westerns americanos, é sim baseado na obra de Fernando Pessoa. Realisticamente falando, Empírico se o leitor quiser, são filmes com pouca relevância, basta olhar para estatísticas ou querendo comparar até com um único estádio de futebol.

     "Não Sou Nada - The Nothingness Club" saiu da mente imprevisível de Edgar Pêra. No filme a técnica é a rainha soberana no seu próprio poder à semelhança de qualquer núcleo de produção.
O estudo do caos que, aparentemente, se insiste em apurar no que concerne ao cinema experimental, obteve neste filme um determinado rigor, sobretudo rigor estético, mesmo na deformação da própria verdade absoluta, recorrendo ao cinema do futuro que contém multiplas imagens sobrepostas. Contudo, a beleza que reside no filme é única na complexa dança dos paroxismos do cinema português, um filme fora de sentido, mas ainda assim elegante. Um filme que apesar de não ser curta-metragem, não é habitual, a narrativa díspar foca-se exclusivamente nas vicissitudes de Fernando Pessoa e sobretudo no heterónimo Álvaro de Campos, mais metafísico que Ricardo Reis, discípulo de Alberto Caeiro, mas violento nas suas convicções. O filme aborda a perseverança e muy distinta linguística pessoana, esse nobel da literatura que nunca o chegou a ser devido à guerra mundial.

IG23

In Vallis Longus
Ass.: Ivan Josué

Mal Viver (2023) ☆☆☆☆

       De há uns anos para cá trago comigo para a vida uma questão existencial que não me canso de partilhar com o próximo: "vida boa ou boa vida?". Deixo sempre os outros escolherem face às minhas decisões, no entanto, a dicotomia que me faz escrever sobre cinema são os dois filmes portugueses “Mal Viver” e “Viver Mal”, ambos os filmes em exibição simultânea nas principais salas de cinema do país. Dois filmes que partilham um mesmo tema mas em perspectivas diferentes.
    Papel preponderante das distribuidoras não apenas porque "Mal Viver" foi destingido no Berlinale (festival de cinema de Berlim) com o urso de prata, mas também porque se trata de um novo conceito que garante sucesso, mas também autenticidade. 
    No meu interesse sempre pelo cinema, ousaria classifica-los como derradeiros na obra do calejado realizador português João Canijo, isto a olhar para outros títulos da sua filmografia como “Ganhar a Vida” e “Sangue do Meu Sangue”. Decerto que ambos os filmes são lúcidos, cientes das barreiras inevitáveis nas relações humanas e profissionais, filmes conformados com a mediocridade neles existente. Tal como eu preciso de me reinventar para fazer os meus filmes (as minhas pinturas, as minhas peças, o meu design) o cinema não é excepção, também se reinventa, é isso que também se procura na alegoria do cinema.
    No meu olhar focado na arte, a distinção dos filmes advém, em parte, do seu compromisso e da sua técnica. Tanto a imagem como o som estão exímios, dando-lhes uma beleza implícita na imagem que compõe a fotografia, como na exploração do universo sonoro onde os filmes habitam. Na fotografia encontro uma latência estética imprescindível à composição que acontece num hotel, onde de um lado estão os hospedes ("Viver Mal") e do outro lado o patronato ("Mal Viver"). É neste universo que os filmes existem, e que a técnica contribui para que não hajam erros, são filmes profissionais, que é a totalidade de um bom filme. 
    Com esta ideia transumante de duas câmaras de filmar e as suas duas perspectivas, a diretora Leonor Teles desencadeia quase sem querer dois filmes que aparentemente seria apenas um, levando o cinema a reinventar-se naturalmente. Dois lados da mesma moeda que se expõem sobre a mesa das clarividências onde no discurso, muitas vezes cansado e decadente, reina uma espécie de ode à falência de um socialismo tardio, mas ainda assim imperativo, totalitário e muitas vezes imprudente. É preciso conhecer as personagens para encontrar nelas um tal de espelho social onde reflete o melhor, mas também o pior, das sociedades (sobretudo das pessoas), expondo dois lados nas relações humanas. 
    Estes filmes são claramente o escape possível que o cinema, de hoje e português, permite ao espectador conhecer a verdade sem que para isso o comprometa. “Viver Mal” e “Mal Viver” são o sinal forte que o cinema português tem para o seu público

  

in Análise e critíca: fragmentos sobre sétima arte.
IG`23

O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020) ☆☆☆



    Ano da Morte de Ricardo Reis (2020) de João Botelho: um hino à comunidade académica; uma homenagem aos amigos, ao amigo cúmplice; um rasgo de confiança à maçonaria; uma ode às elites, aos intelectuais, ao conhecimento cientifico. Este filme português está nas salas de cinema mas não está só: à data do inicio deste artigo estava também o Listen de Ana Rocha de Sousa. Hoje o Amor Fati da Cláudia Varejão.


      Quem? Mas quem? Quem vai à sala de cinema ver este filme português? Mas quem partilha a beleza deste filme com o olhar cúmplice que merece? Com as palavras que lhe assentam? Quem? Mas quem tem a coragem de ir ver este filme sobre a amizade? Que massa critica é essa que há? Quem são os descontentes com o sucessivo desapoio à arte pela arte? Quem luta por 1% do OE para a cultura? Estas perguntas desconcertantes são lançadas assim e numa primeira instância à minha analise ao filme.



«a morte saiu a rua num dia assim» (Zeca Afonso)



    Está em sala de cinema, não um filme português, mas dois ou três. Comum nos dias de hoje. Chamasse O Ano da Morte de Ricardo Reis, uma adaptação de João Botelho ao livro do mesmo nome de José Saramago, cujo o protagonista é o heterónimo Ricardo Reis de Fernando Pessoa, interpretado por Chico Diaz. Este filme não é propriamente de entretenimento, por isso haja coragem para o ver, sozinho, com a cara metade ou desafiando o amigo mais cúmplice. O ano da morte de Ricardo Reis, de facto não procura agradar à maioria do público mas com certeza que luta por mais espectadores, que anseia toda uma massa critica à semelhança de outros filmes do mesmo realizador. A meia dúzia de pessoas que gera em qualquer sessão pelo país fora, fará com certeza a diferença que se quer e é de certo objectivo pessoal de João Botelho enquanto realizador, não a meia dúzia de pessoas, que já é significativo mas a massa critica que daí advém de coisas bem pertinentes como injustiças sociais e de classes. No caso do espectador comum, que se identifica com o cinema industrial feito a pensar em brutais receitas de bilheteira - chamado cinema mainstream - o máximo que este filme pode provocar são náuseas por seguirmos diálogos, por vezes longos em planos fechados onde o olhar não tem outra opção que seguir a velha amizade, no caso entre o criador e criatura, isto é, Fernando Pessoa e o seu heterónimo Ricardo Reis, como se a morte saísse à rua num dia assim, pois a «metafisica encontra finalmente a física», entre a não existência de Ricardo Reis, e porque à data da acção do filme Fernando Pessoa já não estaria vivo. Ricardo Reis, nas mãos do Pessoa não tinha data da sua morte nem voltara do Brasil, José Saramago trouxe-o do Brasil onde estivera exilado 16 anos. A Trama acontece no ano de 1936, ano fortemente marcado pelo nazismo de Hitler, pelo fascismo de Mussolini e pela guerra civil espanhola mas que em Lisboa por entre alguma miséria vivia-se bem por entre copos, a bela Vitória Guerra e mulheres. O filme maioritariamente a preto e branco, subgénero de Film-Noir, apesar de escuro está perfeitamente iluminado, os rostos e os lugares. No fundo uma relativa continuidade ao desenvolvido no filme desassossego, dentro da habitual limitação do cinema português. 
    Este filme pode oferecer a possibilidade de se criar outro rumo para o cinema português, nomeadamente no que à distribuição diz respeito e por muito ilusório que seja acreditar nisto. O cinema de Hollywood e o cinema de estúdio estão fragilizados perante casos isolados do cinema português que está vivo e recomenda-se. Cabe não só ao ego dos realizadores e ao bom-senso do poder soberano mas sobretudo da comunicação social. O cinema português regra geral nunca viveu de bilheteira, essa é a premissa muitas vezes utilizada por quem conhece o cinema por fora e de como deveria ser o cinema português. Foram anos a fio a financiar os filmes às mesmas pessoas, que apesar de serem reconhecidos no estrangeiro poucas pessoas viram os filmes. Talvez um dia o cinema português viva de bilheteira quando houver incentivos fiscais às pessoas que pagam para ir ao cinema e para os levar os filmes para casa e para as instituições. 

Cinema em português.

   Cito o artista e autor de luz cor movimento ou mensagens para sempre: " tratasse de uma curta metragem, um filme. Realizado no âmbito de coisa nenhuma, sem o apoio do instituto do cinema e do audiovisual,  sem o apoio do governo de Portugal, sem o apoio da direção geral das artes, nem da fundação Calouste Gulbenkian e porventura, mais preocupante, sem o apoio de um quinto elemento como por exemplo do compete 2020 ou da fundação Manuel Oliveira, presumo contudo que será assim avante".
   Este forte indicador serve à percentagem mínima de pessoas que sempre dedicaram os estudos às artes e alertando para que as práticas vigentes não estejam submissas à sobreposição constante dos métodos científicos sobre o sujeito artístico, que para isso já temos as profissões e os filmes que obtém lucros na receita de bilheteira. (Neste ponto surge em mim uma retorica: será que os orçamentos megalômanos dos filmes do Oliveira, do João César ou se quisermos do Vasconcelos, ou do Botelho algum dia justificarão o orçamento com a bilheteira, isto é, os filmes desses autores, realizaram-se com base na receita posterior de bilheteira?) 2020 começamos a celebrar cem anos das grandes obras do cinema português, realizado sobretudo por italianos e franceses mas ainda assim tipicamente portugueses, por exemplo os Lobos e a Canção de Lisboa. Os filmes de época faziam frente ao "star system" de Hollywood, até que em Portugal se decidiu evoluir noutro sentido e diferenciar as grandes produções do cinema americano e com mérito. Em Portugal começou a utilizar-se novos ângulos de câmara, explorando a relação do Homem com o mar, surgindo por exemplo "Nazaré, praia de pescadores". Claro que o cinema de estúdio em Inglaterra é alternativa às práticas vigentes e por outro lado o cinema de Hollywood está aberto a todos os sonhos do mundo, aliás Ed Wood com uma pasta na mão, cheia de ideias e a outra livre para bater a todas as portas de Hollywood, realizou o "plano 9 de outro espaço". Isto tudo, se uma pessoa quiser prosseguir o estudo do cinema e não se interessar pelo cinema de bollywood (Índia) ou de fazer filmes do gênero "Pôr-o-gráfico". Talvez com isto, e em alternativa, o cineasta e realizador leiriense António Campos tivesse razão, mostrando uma ideia de cinema verosímil e exequível a ganhar forma e a motivar populações junto das pessoas, de onde se é natural. Vilarinho das furnas de António Campos, mostra os últimos dias de uma população, numa aldeia que será submersa pelas águas com a construção de uma barragem. O filme é de facto, filmado em Vilarinho das Furnas (trás-os-montes) mas de certo que a intenção de o filmar já vinha dos «campos do lis».
   Quero com a dicotomia das profissões, que já são rigorosas e da arte de transcender, um mero escape ao estabelecido nem que seja no modo de contar estórias. A teoria da arte já é um complemento eficaz no essencial da vida, falo aqui de uma luta sem opositores, da arte nas escolhas das pessoas e não da sua ausência.

O regresso (encontros cinematográficos)

  Em Abril do presente ano civil aconteceu mais uma edição dos encontros cinematográficos na cidade do Fundão. Encontros que de alguma maneira despoletaram com as jornadas do cinema proibido e que ainda assim parece ter a mesma aura, tido como único no país: Filmes raros, filmes nunca antes exibidos, filmes que por qualquer razão estiveram longe do grande blico, mas com conteúdo fidedigno, obras de arte, filmes de culto, obras-primas muito à semelhança do que é o cinema português na sua verdadeira acepção. Pode inclusive falar-se em filmes censurados, por exemplo filmes em que a vontade de o fazer supera a inexistência total de apoios.  filme que assisti nestes encontros, na sua gênese é película e chamasse "O regresso". Titulo bem sugestivo pela carga filosófica que tem. A exibição deste filme foi escolha na realizadora Ana Luisa Guimarães que apresentou o seu filme "A nuvem" e que data de 1991. Segundo a critica "O regresso" do realizador Andrey Zvyagintsev volta a trazer junto do publico a tradição do cinema russo, aquele que Andrei tarkovski praticava. 
  O filme fala sobre dois jovens irmãos ou se quisermos o regresso inesperado do pai após 12 anos de ausência e que a pedido da mãe os leva numa odisseia pela natureza, numa espécie de ferias onde acampam e aprendem os princípios básicos de sobrevivência. Ivan, o mais novo dos irmãos, desconfia até ao limite que ele seja seu pai, levando-os à loucura. De facto, numa fotografia que o rapaz guardou, consegue identificar alguns traços que se assemelham ao individuo que se faz passar por pai. Esta odisseia leva os rapazes por uma Europa distante, onde há praias sem gente, florestas inexploradas, até ao destino: uma ilha, que parece ter sido habitada por militares. 

Al Berto, o Filme.

prepósito do conhecimento cientifico e das praticas cinematográficas (...), conheci na academia de cinema uma pessoa e amigo natural de Viseu que no entretanto organizou um festival de cinema português com algumas características interessantes: Não foram abertas vagas a realizadores  independentes, mas o próprio staff escolheu com critério os filmes a apresentar. 
O filme que  me levou ao festival de Lafões em Viseu, chamasse "Alberto" um nome bem familiar para quem conhece a alguma poesia surrealista. "Alberto" do realizador Vicente do Ó, fez deslocar-me ao festival, conhecer o poeta e reencontrar um velho amigo produtor e realizador de teatro e cinema. Al Berto no filme é uma personagem quase terciária que entra em cena apenas para dar o ar da sua graça com frases simples e de grande sabedoria. Marcou-me "O povo não sabe o que diz", frase de sentidos divergentes que enclausurou o meu pensamento na viagem de volta á beira baixa. Pela controvérsia tive a necessidade de conhecer a posteriori um outro autor com o qual me identifico mais e que não posso deixar de referir Herberto Helder (fica a dica). O Filme Alberto tem uma particularidade que acho fascinante neste mundo mais ou menos underground que é o cinema e que pretendo explorar: Alberto é para mim uma personagem de um filme, foi desse modo que o conheci e não foram as letras que o eternizaram. 
Contextualizando, o filme é belo pela simplicidade lírica, remonta a 1974, ano conturbado de muita produção (O filme passa-se em Sines) e da revolução dos cravos, quando em Sines despoletavam os sindicatos e as revindicações. Alberto fora estudar artes plásticas para Bruxelas (Bruxelas, vejam bem) e regressou às origens para ainda assistir à desapropriação que fora alvo com a casa que herdara da família, imediatamente a seguir às tertúlias literárias que organizava para a comunidade.  

Cinema terapêutico

    Ainda meio ensoneirado, assistia no noticiário a uma peça que me deixou perplexo, o número de fármacos para dormir tem crescido, levando os meus sentidos para duas observações: a população poderá estar eventualmente adoecida e o meu sonho que um dia alguém dirá isso em relação ao cinema, usado para terapia.
    Recordei um filme de Stanley Kubrick “Laranja mecânica”. Ainda sucumbido com esse facto absolutamente digno de baixa cultura (que nem questiona o constante progresso da indústria farmacêutica), penso nos cineastas que tentam a todo o custo produzir filmes, até a dormir e que servem como uma luva a todos os males de que sofrem os indivíduos. Nesse filme, um jovem rebelde  é submetido a um rigoroso exercício experimental onde a música clássica e um filme composto por sucessivas imagens em movimento, procuram reeducar a personagem e, ao que se sabe com sucesso, apesar de forçado. Do tipo, a cultura submersa na arte para fins terapêuticos.
   Falar de cinema, de grosso modo é, possivelmente, um comprimido sustentável, algo metafisico. É claro que não gere os milhões das agências farmacêuticas mas, ainda assim, gere milhões - até ao dia que o nosso governo com as sucessivas políticas de exclusão às artes extinga do nosso vocabulário cinema – e caso pareça cliché,  o conhecimento científico ou senso comum, com falsas esperanças a banirem aos poucos os cineastas que lutam por um dialéctico cinematográfico como prática imprescindível no crescimento do ser humano, uma espécie de cura para a utupia da peste negra que paira sobre o universo.
Num filme à priori, podemos sintetizar o tipo de carácter das personagens. Por exemplo, na Nouvelle Vague a personagem feminina, quase sempre inocente, esconde na sua beleza natural medos e fragilidades e aí entra aquilo que me trouxe à escrita: a psicanalise. O meio cientifico a favor da pureza da imagem, a arte de braços dados com a patologia humana, por outras palavras o surrealismo: uma simples imagem a valer por mil palavras, a razão de cada personagem representada na imagem, espelhada nos seus rostos, sem palavras ou com um número reduzido, uma espécie de cura relacional, como se as pessoas se expusessem pela primeira vez à natureza.
    Existem muitos realizadores, cineastas ou fazedores de filmes que sempre utilizam esta técnica cientifica, consciente ou inconsciente, contudo, trás algumas divergências, mostrando por vezes o pior de cada pessoa para o bem maior do espetador. Se os realizadores são uma espécie em via de extinção por forças adversas maiores, não nos interessa discutir filmografias no hall de casa, nem nos cafés. Há outras coisas que nos oferecem mais dores de cabeça, problemas e falsas esperanças com filmes que existem aos molhos no dia-a-dia e que não chegam à sombra de um cineasta.
    Caracteres ou personalidades à parte, fazedores de filmes podem divergir na concepção dos seus filmes  mas uns procuram o recurso à psicanálise na abordagem à vida, outros sublimes que sem planos emotivos e em constante movimento iludem o espetador a outros sentidos da trama. Com isto, o meio cientifico trabalhando ao serviço da arte e vice versa, formam uma dupla terapêutica. Quanto ao método de assistir ao filme pode ser um acto doloroso, típico de bons filmes, mas, a minha experiência, deixa uma certeza: nem a arte se vira contra nós nem o cinema é retroativo para quem invoca o seu nome. Por exemplo, um filme explicado por palavras é sempre um filme explicado por palavras; um filme que trate um problema é um filme não é um problema; em Voando sobre um ninho de cucus, filme de Milos Forman, o filme trata alguns problemas sociais, mas é parte da solução.