Ensaio crítico - Escola do cinema

 Em Itália no pós-guerra, cinema tornou-se o principal motor económico das ruas e das cidades. Nos Estados Unidos, cinema continua initerruptamente como a quarta maior indústria. Na Rússia, desde que a revolução industrial se consolidou, que cinema é parte integrante das escolas. A escola de cinema na Rússia é célere, de uma importância inigualável e inegável. É, portanto, legitimo pensar em cinema como uma ideologia capaz de derrubar um inimigo desinteressado, mas que financia a própria ideia de cinema através do contribuinte.

Se, cinema, fosse uma ideia de amor, que os puristas acreditarão, então a arma que é o cinema estaria ao alcance apenas de alguns predestinados e nós, espetadores, estaríamos sigilados a perspectivas sensíveis, muitas vezes transloucadas da nossa realidade e alheias à nossa existência Continuando, certamente, de sorriso amarelo em algumas adversidades. É, portanto, legitimo pensar em cinema como uma arma capaz de destronar o maior dos inimigos a mediocridade mas também governos e a comunicação social.

Recuso com isto, uma ideia de cineasta enquanto profissão. Cineasta é um psicólogo que recusa a profissão. Mantém o sonho "lá em cima", mesmo para quem jovem se sentiu impossibilidade de o perseguir. Talvez enquanto realizador de televisão e publicidade, haja o reconhecimento profissional, mas não um cineasta que é sociólogo, marceneiro, pintor, escritor. Um cineasta lida com a opinião pública e a mediocridade, mas mantém a resistência no ser e no pensar, dando ferramentas aos seres imorais para uma nova forma de sentir, que é alheia à opinião pública, mas próprio da sétima arte. O cineasta é bombardeado todos os dias com o que ousa afirmar, ao contrario de uma profissão que procura estabilidade. Cineasta é uma atitude de resistência ao pré-estabelecido. 

Onde há guerras, há falta de empatia, onde o mais fraco não pode dar sinais de fragilidade, onde se inferioriza o próximo para se ser alguém, as mascaras de mil homens corroem o juízo publico. Apesar de moderado, as Realidades alternativas que saem do punho e do nervo do cineasta poderão ser imprescindíveis, quando é escasso a sensatez e o bom senso.


Lágrimas e Suspiros (Ingmar Bergman, 1972) ☆☆☆☆

    O dramaturgo francês Antonin Artaud numa conhecida emissão de rádio afirmou que o Homem é, por excelência, um animal erótico. Décadas mais tarde, o realizador sueco Ingmar Bergman viria a executar "Lágrimas e Suspiros" (1972), filme cujo o realismo desse estranho sentimento de sedução se apoderou, ainda que de forma sublime, no seio de uma família burguesa do séc. XIX, pois quando foi diagnosticado um cancro em estado avançado em Agnes, umas das três irmãs protagonistas, as relações humanas foram alteradas profundamente.  

    Ao contrario de uma estrutura da narrativa clássica, onde surgem conflitos e consequentes resoluções, o desfecho deste filme é provavelmente o enunciado, mesmo quando a morte se aproxima o erotismo manifesta-se esplendorosamente. Sem distrações, nem fugas para o supérfluo, o filme foca-se no humanismo perante situações extremas como a dor e a solidão, mas também na questão estética que rodeia o filme, dando luz e cor a cenas simplesmente sombrias e "incolores".

    A determinada altura da vida achei que começara a perceber de filmes, então seria necessário encontrar uma forma plausível de chegar ao próximo filme. Através dos clubes de vídeo, encontrei um lugar de encontro de ideias, onde a principal motivação é o cinema e onde conheci as cinematografias do mundo. Desde logo percebi que Ingmar Bergman é um nome incontornável no cinema europeu, até porque escolher um filme com base em características distintas como a direção de arte e a fotografia, que garantem ao espetador beleza e satisfação, logo chegamos à filmografia de Bergman que sempre se destacou pela sua estética. Além da originalidade das historias, a simplicidade implícita em cada uma delas revela enorme talento de um dos cineastas mais constantes e respeitados junto da critica internacional.

    "Lágrimas e Suspiros" (1972) conta com a atriz Liv Ullman, presença recorrente nos filmes de Ingmar Bergman e está disponível para visualização no streaming do canal TVCINE+.

Análise ao Filme de Luís Filipe Rocha ☆☆☆

Análise poética ao Filme de Luís Filipe Rocha

"Cinzento e Negro" (2015)

    O mar é o foco. "Cinzento e Negro" é um filme diferente da generalidade no cinema português, pois é um tipo de cinema que olha o mar como personagem principal. Ainda que de forma discreta, a presença do mar tem sido caracteristica comum na maioria do cinema português desde que em 1929 Leitão de Barros realizou "Nazaré, Praia de Pescadores". Daí em diante é possível extrair beleza na contemplação e bem-estar na relação entre cinema e mar. Em "Cinzento e Negro" e paralelamente à narrativa que se revela atraente e verdadeiramente surpreendente, pois o filme desenrola-se de forma original e tão pouco convencional, há lugar à verdade na magnifica paisagem dos Açores onde o filme é rodado.

    Ainda que simbolicamente, "Cinzento e Negro" reflete um livro que ocupa os antípodas da mente, é o ser-se culto em ir e voltar. Olhar o mar. Ter, não apenas ser, no cinema um lugar exclusivo da lógica, da razão, da verdade cinematográfica, a mais nobre produção, pura e não material. Não só pela beleza da arte como da vida, a própria oleosidade dos atores desperta o mais recôndito espetador, numa narrativa que se desenvolve de forma caótica e decadente, como se tratasse de uma história entre assassino e o seu psiquiatra.

    "Cinzento e Negro" é um filme de Luís Filipe Rocha, data de 2015 e está disponível para visualização na plataforma RTP PLAY.


Porto, Outubro 2024

IG2024

Race To Glory (2024) ☆☆☆

    

   "Race to Glory" trouxe de novo a emoção do desporto automóvel ao cinema, apenas um ano depois de "Ferrari" (2023), cujo o teor de cariz biográfico sobre o fundador da marca italiana se torna veículo para a presença na fórmula 1 e na mítica prova de Mille Miglia. 
   Se para a crítica especializada "Ferrari" (2023) é a melhor experiência de corridas no cinema até então, "Race to Glory" trás à baila a questão da competitividade tão presente no cinema como no desporto, pois o filme reclama que quer ser o melhor simulador cinematográfico de corridas automóveis, funcionando como uma extensão realista da prova, preenchendo uma lacuna existente no rali entre as equipas e público com recurso ao cinema. 
   "Race to Glory" especializou-se no concreto, isto é, um filme sobre o mundial de ralis do ano de 1983. Assim, os técnicos de áudio souberam recolher os sons com todo o realismo possivel contribuindo para uma experiência plena sem precedentes. 
   Em 2010 o documentário sobre o piloto Ayrton Senna intitulado "Senna" sensibilizou simultaneamente fãs do desporto e fãs de cinema num único campo unitário, por outras palavras, adeptos do piloto brasileiro que adoram o filme e amantes de cinema que passaram a admirar Senna. Na minha opinião, "Race to Glory" reclama o mesmo estado igualitário, dada a ousadia em distribuir pelo mundo inteiro um filme tão concreto, mas de inegável qualidade técnica. Ao contrário dos dois filmes citados ("Ferrari" e "Senna"), "Race to Glory" não é sobre fórmula 1 mas sobre o campeonato do mundo de ralis e especificamente no ano de 1983, cujo o campeonato tendia para o domínio absoluto da AUDI com o sistema inovador de tracção às "QUATTRO" rodas; e para a ambiciosa equipa da Lancia que depositava todas as esperanças no famoso modelo 037 mas que tinha tração às duas rodas motrizes. O resto também é história automóvel, e como em todas as modalidades, o público muito contribuiu.

Daaaaaalí ! (2023) ☆☆☆

    Salvador Dali ao contrário de Van Gogh que apenas se tornou célere pós morte, Dalí viveu da sua arte, contribuindo para o génio. O cunho surrealista que sempre impregnou na arte e a excentricidade fiel a si mesmo, fazem dele um artista verdadeiramente admirado. 
    2023 trouxe de novo o mestre Dalí ao habitat de onde é natural, ao cinema, além de "Daaaaaalí !", "Daliland" - que ainda se aguarda estreia nacional - trouxe o nome Dalí ao grande ecrã. Ambos reacendem a enigmática curiosidade de quem persiste em envolver-se na matéria do surrealismo. "Daliland" promete ser mais preciso e incisivo na altura em que o artista, a viver nos Estados Unidos da América, assinava a pintura com o anagrama Avida Dollars - ora fugido de Franco, ora Estados Unidos da América como terra de oportunidades. "Daaaaaalí !" é fruto da ambição em se fazer, exclusivamente, uma obra de arte cinematográfica, isto é , ambição de se fazer um filme atraente para os sentidos, um filme onde a estética visual se sobrepõe ao rigor narrativo, mas também onde transcende do ecrã a verdadeira personalidade do artista, que como qualquer vulgo humano está susceptível a crises de identidade e existência. Para que um filme seja objecto artístico de valor, e exequível, é necessário tempo para o desenvolvimento e como se trata de um filme biográfico é preciso pesquisa. É portanto necessário condições favoráveis que nem sempre são possíveis de atingir, no entanto, a passividade mora em "Daaaaaalí !" como em qualquer bom filme de arte. O humor característico em Salvador Dali está representado no filme em exagero como uma forma de caricatura numa linha de tempo tão complexa como a própria estrutura do movimento surrealista. Tentar decifrar a continuidade de um filme fragmentado próprio do surrealismo, é tentar decifrar o próprio movimento, estando-se sujeito ao ridículo em prol de sentido muitas vezes inexistente. O sonho onde o filme habita é a imaginação: a razão dá lugar à intuição e não se acaba na teoria da psicanálise, termo intimamente ligado ao surrealismo, mas "Daaaaaalí!" não se finda na relação com o pai, no prazer do bebé, nem na sexualidade, mas sim na infinidade conceptual de sonho como lugar imaginativo, livre da amarra da ordem dominante. Não é só no velho cinema que existe o cliché cinematográfico de um filme dentro de um filme [Definição demasiado boa para classificar um filme] "Daaaaaalí!" é um sucessivo sonho dentro de um sonho de inúmeras personagens que fazem delas próprias. 
    ...É bonita a roda viva da imaginação. Não é se não o único caminho possível à dissolução da imaginação na realidade sempre mais austera do que no cinema.



Perfect Days (Wim Wenders, 2023) ☆☆☆☆☆


      Esperar por Dezembro (2023) na certeza de querer ver o novo filme do conceituado realizador Wim Wenders e estar perante o melhor filme do ano - que apesar de estar no circuito comercial, por mérito próprio - tem um ponto de vista de autor, que o torna entusiasmante e visualmente atraente.
   Dias Perfeitos é uma ode à rotina, ao melhor de cada rotina, que fruí na paixão de quem ama a sua profissão e que, no filme, fluí na expectante cidade de Tokyo, cujo o protagonista, um homem de meia idade lava casas de banho. Tudo o que o realizador habituou a quem gosta dos seus filmes, a exemplo "Lisbon Story" (1995), está consolidado em Perfect Days, com vertiginosas descargas emocionais nas poucas palavras transportadas pelos personagens;
    À imagem do realizador, o protagonista, um homem paternalista cumpre o sonho de viver a vida, dedicando-se à sua profissão, no fundo, um homem que aprendeu a ser feliz com o que tem e que por sua vez se torna suscetível de ser inspirador para os outros.  O papel da música e da arquitetura desempenham, tal como a fotografia e a montagem, um papel decisivo no filme como arte - muitas vezes há coisas que não se explicam, sentem-se. É nessa "solitude" que convive a realidade de cada um, sobretudo do realizador, que de certa forma, propõe o mesmo ao espetador. Nesse "fosso" podemos refletir e fazer as nossas próprias escolhas. Wim Wenders recorreu a clássicos criteriosamente selecionados, como por exemplo “Another Brick in the wall" dos Pink Floyd, para propor uma filosofia bem resolvida, tal como as linhas das ruas e dos edifícios, a arquitetura é parte integrante da narrativa, convidando o espetador à imersão. Tudo o que se pode querer do cinema como fonte de escapismo, de fuga à realidade, apetecível ao comum dos mortais, está em Perfect Days de forma portentosa, digo.

IG24

In Vallis Longus
Ass.: Ivan Josué 05.02

Via Norte (2024) ☆☆☆

  Existem dois tipos de crítica, a crítica que serve para promover um filme - não menos meritório - e a crítica que serve para complementar um filme com uma frase, um pensamento, etc. Seja pela estética do filme "Via Norte", seja pela originalidade, gosto de filmes que estejam próximos da comunidade e isso acontece de forma genuína neste filme. Um documentário sobre pessoas que estão longe dos lugares que as viram nascer, contudo, um documentário, também ele sujeito ao fatalismo dos intervenientes perceberem a presença da camara de filmar, o que o torna subtil e suficientemente entusiasmante com estórias de amor por carros, e do romance dos emigrantes portugueses, num filme de viagem, de pouca estrada, mas com paragens categoricamente encenadas.

 O realizador Paulo sem medos, ousou fazer algo novo, mesmo não o sendo, por isso identitário sem receio que se pareça com outro filme. O despretensiosíssimo do filme leva-o no melhor caminho possível, o seu caminho. Para isso é preciso debate-lo: perceber todas as ambivalências, dispensando vanglorias ao ego que o realizador se sujeitava caso o filme fosse atrás de prémios.

  Produções como esta pouco convencional, cujo as ideias tendem sempre a sobrepor-se aos meios, são importantes e merecem ser apoiadas. Se as pessoas não procuram este tipo de filmes e não vão ao cinema, importa saber que é imprescindível que se faça.

IG2024

In Vallis Longus
Assinado Ivan Josué 31.01