Mal Viver (2023) ☆☆☆☆

       De há uns anos para cá trago comigo para a vida uma questão existencial que não me canso de partilhar com o próximo: "vida boa ou boa vida?". Deixo sempre os outros escolherem face às minhas decisões, no entanto, a dicotomia que me faz escrever sobre cinema são os dois filmes portugueses “Mal Viver” e “Viver Mal”, ambos os filmes em exibição simultânea nas principais salas de cinema do país. Dois filmes que partilham um mesmo tema mas em perspectivas diferentes.
    Papel preponderante das distribuidoras não apenas porque "Mal Viver" foi destingido no Berlinale (festival de cinema de Berlim) com o urso de prata, mas também porque se trata de um novo conceito que garante sucesso, mas também autenticidade. 
    No meu interesse sempre pelo cinema, ousaria classifica-los como derradeiros na obra do calejado realizador português João Canijo, isto a olhar para outros títulos da sua filmografia como “Ganhar a Vida” e “Sangue do Meu Sangue”. Decerto que ambos os filmes são lúcidos, cientes das barreiras inevitáveis nas relações humanas e profissionais, filmes conformados com a mediocridade neles existente. Tal como eu preciso de me reinventar para fazer os meus filmes (as minhas pinturas, as minhas peças, o meu design) o cinema não é excepção, também se reinventa, é isso que também se procura na alegoria do cinema.
    No meu olhar focado na arte, a distinção dos filmes advém, em parte, do seu compromisso e da sua técnica. Tanto a imagem como o som estão exímios, dando-lhes uma beleza implícita na imagem que compõe a fotografia, como na exploração do universo sonoro onde os filmes habitam. Na fotografia encontro uma latência estética imprescindível à composição que acontece num hotel, onde de um lado estão os hospedes ("Viver Mal") e do outro lado o patronato ("Mal Viver"). É neste universo que os filmes existem, e que a técnica contribui para que não hajam erros, são filmes profissionais, que é a totalidade de um bom filme. 
    Com esta ideia transumante de duas câmaras de filmar e as suas duas perspectivas, a diretora Leonor Teles desencadeia quase sem querer dois filmes que aparentemente seria apenas um, levando o cinema a reinventar-se naturalmente. Dois lados da mesma moeda que se expõem sobre a mesa das clarividências onde no discurso, muitas vezes cansado e decadente, reina uma espécie de ode à falência de um socialismo tardio, mas ainda assim imperativo, totalitário e muitas vezes imprudente. É preciso conhecer as personagens para encontrar nelas um tal de espelho social onde reflete o melhor, mas também o pior, das sociedades (sobretudo das pessoas), expondo dois lados nas relações humanas. 
    Estes filmes são claramente o escape possível que o cinema, de hoje e português, permite ao espectador conhecer a verdade sem que para isso o comprometa. “Viver Mal” e “Mal Viver” são o sinal forte que o cinema português tem para o seu público

  

in Análise e critíca: fragmentos sobre sétima arte.
IG`23