Cinema em português.

   Cito o artista e autor de luz cor movimento ou mensagens para sempre: " tratasse de uma curta metragem, um filme. Realizado no âmbito de coisa nenhuma, sem o apoio do instituto do cinema e do audiovisual,  sem o apoio do governo de Portugal, sem o apoio da direção geral das artes, nem da fundação Calouste Gulbenkian e porventura, mais preocupante, sem o apoio de um quinto elemento como por exemplo do compete 2020 ou da fundação Manuel Oliveira, presumo contudo que será assim avante".
   Este forte indicador serve à percentagem mínima de pessoas que sempre dedicaram os estudos às artes e alertando para que as práticas vigentes não estejam submissas à sobreposição constante dos métodos científicos sobre o sujeito artístico, que para isso já temos as profissões e os filmes que obtém lucros na receita de bilheteira. (Neste ponto surge em mim uma retorica: será que os orçamentos megalômanos dos filmes do Oliveira, do João César ou se quisermos do Vasconcelos, ou do Botelho algum dia justificarão o orçamento com a bilheteira, isto é, os filmes desses autores, realizaram-se com base na receita posterior de bilheteira?) 2020 começamos a celebrar cem anos das grandes obras do cinema português, realizado sobretudo por italianos e franceses mas ainda assim tipicamente portugueses, por exemplo os Lobos e a Canção de Lisboa. Os filmes de época faziam frente ao "star system" de Hollywood, até que em Portugal se decidiu evoluir noutro sentido e diferenciar as grandes produções do cinema americano e com mérito. Em Portugal começou a utilizar-se novos ângulos de câmara, explorando a relação do Homem com o mar, surgindo por exemplo "Nazaré, praia de pescadores". Claro que o cinema de estúdio em Inglaterra é alternativa às práticas vigentes e por outro lado o cinema de Hollywood está aberto a todos os sonhos do mundo, aliás Ed Wood com uma pasta na mão, cheia de ideias e a outra livre para bater a todas as portas de Hollywood, realizou o "plano 9 de outro espaço". Isto tudo, se uma pessoa quiser prosseguir o estudo do cinema e não se interessar pelo cinema de bollywood (Índia) ou de fazer filmes do gênero "Pôr-o-gráfico". Talvez com isto, e em alternativa, o cineasta e realizador leiriense António Campos tivesse razão, mostrando uma ideia de cinema verosímil e exequível a ganhar forma e a motivar populações junto das pessoas, de onde se é natural. Vilarinho das furnas de António Campos, mostra os últimos dias de uma população, numa aldeia que será submersa pelas águas com a construção de uma barragem. O filme é de facto, filmado em Vilarinho das Furnas (trás-os-montes) mas de certo que a intenção de o filmar já vinha dos «campos do lis».
   Quero com a dicotomia das profissões, que já são rigorosas e da arte de transcender, um mero escape ao estabelecido nem que seja no modo de contar estórias. A teoria da arte já é um complemento eficaz no essencial da vida, falo aqui de uma luta sem opositores, da arte nas escolhas das pessoas e não da sua ausência.

O regresso (encontros cinematográficos)

  Em Abril do presente ano civil aconteceu mais uma edição dos encontros cinematográficos na cidade do Fundão. Encontros que de alguma maneira despoletaram com as jornadas do cinema proibido e que ainda assim parece ter a mesma aura, tido como único no país: Filmes raros, filmes nunca antes exibidos, filmes que por qualquer razão estiveram longe do grande público, mas com conteúdo fidedigno, obras de arte, filmes de culto, obras-primas muito à semelhança do que é o cinema português na sua verdadeira acepção. Pode inclusive falar-se em filmes censurados, por exemplo filmes em que a vontade de o fazer supera a inexistência total de apoios.  O filme que assisti nestes encontros, na sua gênese é película e chamasse "O regresso". Titulo bem sugestivo pela carga filosófica que tem. A exibição deste filme foi escolha na realizadora Ana Luisa Guimarães que apresentou o seu filme "A nuvem" e que data de 1991. Segundo a critica "O regresso" do realizador Andrey Zvyagintsev volta a trazer junto do publico a tradição do cinema russo, aquele que Andrei tarkovski praticava. 
  O filme fala sobre dois jovens irmãos ou se quisermos o regresso inesperado do pai após 12 anos de ausência e que a pedido da mãe os leva numa odisseia pela natureza, numa espécie de ferias onde acampam e aprendem os princípios básicos de sobrevivência. Ivan, o mais novo dos irmãos, desconfia até ao limite que ele seja seu pai, levando-os à loucura. De facto, numa fotografia que o rapaz guardou, consegue identificar alguns traços que se assemelham ao individuo que se faz passar por pai. Esta odisseia leva os rapazes por uma Europa distante, onde há praias sem gente, florestas inexploradas, até ao destino: uma ilha, que parece ter sido habitada por militares. 

Al Berto, o Filme.

A prepósito do conhecimento cientifico e das praticas cinematográficas (...), conheci na academia de cinema uma pessoa e amigo natural de Viseu que no entretanto organizou um festival de cinema português com algumas características interessantes: Não foram abertas vagas a realizadores  independentes, mas o próprio staff escolheu com critério os filmes a apresentar. 
O filme que  me levou ao festival de Lafões em Viseu, chamasse "Alberto" um nome bem familiar para quem conhece a alguma poesia surrealista. "Alberto" do realizador Vicente do Ó, fez deslocar-me ao festival, conhecer o poeta e reencontrar um velho amigo produtor e realizador de teatro e cinema. Al Berto no filme é uma personagem quase terciária que entra em cena apenas para dar o ar da sua graça com frases simples e de grande sabedoria. Marcou-me "O povo não sabe o que diz", frase de sentidos divergentes que enclausurou o meu pensamento na viagem de volta á beira baixa. Pela controvérsia tive a necessidade de conhecer a posteriori um outro autor com o qual me identifico mais e que não posso deixar de referir Herberto Helder (fica a dica). O Filme Alberto tem uma particularidade que acho fascinante neste mundo mais ou menos underground que é o cinema e que pretendo explorar: Alberto é para mim uma personagem de um filme, foi desse modo que o conheci e não foram as letras que o eternizaram. 
Contextualizando, o filme é belo pela simplicidade lírica, remonta a 1974, ano conturbado de muita produção (O filme passa-se em Sines) e da revolução dos cravos, quando em Sines despoletavam os sindicatos e as revindicações. Alberto fora estudar artes plásticas para Bruxelas (Bruxelas, vejam bem) e regressou às origens para ainda assistir à desapropriação que fora alvo com a casa que herdara da família, imediatamente a seguir às tertúlias literárias que organizava para a comunidade.  

Cinema terapêutico

    Ainda meio ensoneirado, assistia no noticiário a uma peça que me deixou perplexo, o número de fármacos para dormir tem crescido, levando os meus sentidos para duas observações: a população poderá estar eventualmente adoecida e o meu sonho que um dia alguém dirá isso em relação ao cinema, usado para terapia.
    Recordei um filme de Stanley Kubrick “Laranja mecânica”. Ainda sucumbido com esse facto absolutamente digno de baixa cultura (que nem questiona o constante progresso da indústria farmacêutica), penso nos cineastas que tentam a todo o custo produzir filmes, até a dormir e que servem como uma luva a todos os males de que sofrem os indivíduos. Nesse filme, um jovem rebelde  é submetido a um rigoroso exercício experimental onde a música clássica e um filme composto por sucessivas imagens em movimento, procuram reeducar a personagem e, ao que se sabe com sucesso, apesar de forçado. Do tipo, a cultura submersa na arte para fins terapêuticos.
   Falar de cinema, de grosso modo é, possivelmente, um comprimido sustentável, algo metafisico. É claro que não gere os milhões das agências farmacêuticas mas, ainda assim, gere milhões - até ao dia que o nosso governo com as sucessivas políticas de exclusão às artes extinga do nosso vocabulário cinema – e caso pareça cliché,  o conhecimento científico ou senso comum, com falsas esperanças a banirem aos poucos os cineastas que lutam por um dialéctico cinematográfico como prática imprescindível no crescimento do ser humano, uma espécie de cura para a utupia da peste negra que paira sobre o universo.
Num filme à priori, podemos sintetizar o tipo de carácter das personagens. Por exemplo, na Nouvelle Vague a personagem feminina, quase sempre inocente, esconde na sua beleza natural medos e fragilidades e aí entra aquilo que me trouxe à escrita: a psicanalise. O meio cientifico a favor da pureza da imagem, a arte de braços dados com a patologia humana, por outras palavras o surrealismo: uma simples imagem a valer por mil palavras, a razão de cada personagem representada na imagem, espelhada nos seus rostos, sem palavras ou com um número reduzido, uma espécie de cura relacional, como se as pessoas se expusessem pela primeira vez à natureza.
    Existem muitos realizadores, cineastas ou fazedores de filmes que sempre utilizam esta técnica cientifica, consciente ou inconsciente, contudo, trás algumas divergências, mostrando por vezes o pior de cada pessoa para o bem maior do espetador. Se os realizadores são uma espécie em via de extinção por forças adversas maiores, não nos interessa discutir filmografias no hall de casa, nem nos cafés. Há outras coisas que nos oferecem mais dores de cabeça, problemas e falsas esperanças com filmes que existem aos molhos no dia-a-dia e que não chegam à sombra de um cineasta.
    Caracteres ou personalidades à parte, fazedores de filmes podem divergir na concepção dos seus filmes  mas uns procuram o recurso à psicanálise na abordagem à vida, outros sublimes que sem planos emotivos e em constante movimento iludem o espetador a outros sentidos da trama. Com isto, o meio cientifico trabalhando ao serviço da arte e vice versa, formam uma dupla terapêutica. Quanto ao método de assistir ao filme pode ser um acto doloroso, típico de bons filmes, mas, a minha experiência, deixa uma certeza: nem a arte se vira contra nós nem o cinema é retroativo para quem invoca o seu nome. Por exemplo, um filme explicado por palavras é sempre um filme explicado por palavras; um filme que trate um problema é um filme não é um problema; em Voando sobre um ninho de cucus, filme de Milos Forman, o filme trata alguns problemas sociais, mas é parte da solução.   
   

Sétimo Selo e Último ano em Marienbad

Sétimo Selo de Ingmar Bergman, 1957 (Suécia) e Último ano em Marienbad de Alain Resnais, 1961 (França)