Perfect Days (Wim Wenders, 2023) ☆☆☆☆☆
Via Norte (2024) ☆☆☆
Existem dois tipos de crítica, a crítica que serve para promover um filme - não menos meritório - e a crítica que serve para complementar um filme com uma frase, um pensamento, etc. Seja pela estética do filme "Via Norte", seja pela originalidade, gosto de filmes que estejam próximos da comunidade e isso acontece de forma genuína neste filme. Um documentário sobre pessoas que estão longe dos lugares que as viram nascer, contudo, um documentário, também ele sujeito ao fatalismo dos intervenientes perceberem a presença da camara de filmar, o que o torna subtil e suficientemente entusiasmante com estórias de amor por carros, e do romance dos emigrantes portugueses, num filme de viagem, de pouca estrada, mas com paragens categoricamente encenadas.
O realizador Paulo sem medos, ousou fazer algo novo, mesmo não o sendo, por isso identitário sem receio que se pareça com outro filme. O despretensiosíssimo do filme leva-o no melhor caminho possível, o seu caminho. Para isso é preciso debate-lo: perceber todas as ambivalências, dispensando vanglorias ao ego que o realizador se sujeitava caso o filme fosse atrás de prémios.
Não Sou Nada (2023) ☆☆
Não vamos esperar mundos e fundos de um filme português, afinal não se trata de um filme espanhol baseado em westerns americanos, é sim baseado na obra de Fernando Pessoa. Realisticamente falando, Empírico se o leitor quiser, são filmes com pouca relevância, basta olhar para estatísticas ou querendo comparar até com um único estádio de futebol.
Mal Viver (2023) ☆☆☆☆
No meu interesse sempre pelo cinema, ousaria classifica-los como derradeiros na obra do calejado realizador português João Canijo, isto a olhar para outros títulos da sua filmografia como “Ganhar a Vida” e “Sangue do Meu Sangue”. Decerto que ambos os filmes são lúcidos, cientes das barreiras inevitáveis nas relações humanas e profissionais, filmes conformados com a mediocridade neles existente. Tal como eu preciso de me reinventar para fazer os meus filmes (as minhas pinturas, as minhas peças, o meu design) o cinema não é excepção, também se reinventa, é isso que também se procura na alegoria do cinema.
No meu olhar focado na arte, a distinção dos filmes advém, em parte, do seu compromisso e da sua técnica. Tanto a imagem como o som estão exímios, dando-lhes uma beleza implícita na imagem que compõe a fotografia, como na exploração do universo sonoro onde os filmes habitam. Na fotografia encontro uma latência estética imprescindível à composição que acontece num hotel, onde de um lado estão os hospedes ("Viver Mal") e do outro lado o patronato ("Mal Viver"). É neste universo que os filmes existem, e que a técnica contribui para que não hajam erros, são filmes profissionais, que é a totalidade de um bom filme.
Com esta ideia transumante de duas câmaras de filmar e as suas duas perspectivas, a diretora Leonor Teles desencadeia quase sem querer dois filmes que aparentemente seria apenas um, levando o cinema a reinventar-se naturalmente. Dois lados da mesma moeda que se expõem sobre a mesa das clarividências onde no discurso, muitas vezes cansado e decadente, reina uma espécie de ode à falência de um socialismo tardio, mas ainda assim imperativo, totalitário e muitas vezes imprudente. É preciso conhecer as personagens para encontrar nelas um tal de espelho social onde reflete o melhor, mas também o pior, das sociedades (sobretudo das pessoas), expondo dois lados nas relações humanas.
Estes filmes são claramente o escape possível que o cinema, de hoje e português, permite ao espectador conhecer a verdade sem que para isso o comprometa. “Viver Mal” e “Mal Viver” são o sinal forte que o cinema português tem para o seu público
O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020) ☆☆☆
O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020) de João Botelho: um hino à comunidade académica; uma homenagem aos amigos, ao amigo cúmplice; um rasgo de confiança à maçonaria; uma ode às elites, aos intelectuais, ao conhecimento cientifico. Este filme português está nas salas de cinema mas não está só: à data do inicio deste artigo estava também o Listen de Ana Rocha de Sousa. Hoje o Amor Fati da Cláudia Varejão.
Quem? Mas quem? Quem vai à sala de cinema ver este filme português? Mas quem partilha a beleza deste filme com o olhar cúmplice que merece? Com as palavras que lhe assentam? Quem? Mas quem tem a coragem de ir ver este filme sobre a amizade? Que massa critica é essa que há? Quem são os descontentes com o sucessivo desapoio à arte pela arte? Quem luta por 1% do OE para a cultura? Estas perguntas desconcertantes são lançadas assim e numa primeira instância à minha analise ao filme.
Cinema em português.
O regresso (encontros cinematográficos)
Al Berto, o Filme.
Cinema terapêutico
Recordei um filme de Stanley Kubrick “Laranja mecânica”. Ainda sucumbido com esse facto absolutamente digno de baixa cultura (que nem questiona o constante progresso da indústria farmacêutica), penso nos cineastas que tentam a todo o custo produzir filmes, até a dormir e que servem como uma luva a todos os males de que sofrem os indivíduos. Nesse filme, um jovem rebelde é submetido a um rigoroso exercício experimental onde a música clássica e um filme composto por sucessivas imagens em movimento, procuram reeducar a personagem e, ao que se sabe com sucesso, apesar de forçado. Do tipo, a cultura submersa na arte para fins terapêuticos.
Falar de cinema, de grosso modo é, possivelmente, um comprimido sustentável, algo metafisico. É claro que não gere os milhões das agências farmacêuticas mas, ainda assim, gere milhões - até ao dia que o nosso governo com as sucessivas políticas de exclusão às artes extinga do nosso vocabulário cinema – e caso pareça cliché, o conhecimento científico ou senso comum, com falsas esperanças a banirem aos poucos os cineastas que lutam por um dialéctico cinematográfico como prática imprescindível no crescimento do ser humano, uma espécie de cura para a utupia da peste negra que paira sobre o universo.
Num filme à priori, podemos sintetizar o tipo de carácter das personagens. Por exemplo, na Nouvelle Vague a personagem feminina, quase sempre inocente, esconde na sua beleza natural medos e fragilidades e aí entra aquilo que me trouxe à escrita: a psicanalise. O meio cientifico a favor da pureza da imagem, a arte de braços dados com a patologia humana, por outras palavras o surrealismo: uma simples imagem a valer por mil palavras, a razão de cada personagem representada na imagem, espelhada nos seus rostos, sem palavras ou com um número reduzido, uma espécie de cura relacional, como se as pessoas se expusessem pela primeira vez à natureza.
Existem muitos realizadores, cineastas ou fazedores de filmes que sempre utilizam esta técnica cientifica, consciente ou inconsciente, contudo, trás algumas divergências, mostrando por vezes o pior de cada pessoa para o bem maior do espetador. Se os realizadores são uma espécie em via de extinção por forças adversas maiores, não nos interessa discutir filmografias no hall de casa, nem nos cafés. Há outras coisas que nos oferecem mais dores de cabeça, problemas e falsas esperanças com filmes que existem aos molhos no dia-a-dia e que não chegam à sombra de um cineasta.
Caracteres ou personalidades à parte, fazedores de filmes podem divergir na concepção dos seus filmes mas uns procuram o recurso à psicanálise na abordagem à vida, outros sublimes que sem planos emotivos e em constante movimento iludem o espetador a outros sentidos da trama. Com isto, o meio cientifico trabalhando ao serviço da arte e vice versa, formam uma dupla terapêutica. Quanto ao método de assistir ao filme pode ser um acto doloroso, típico de bons filmes, mas, a minha experiência, deixa uma certeza: nem a arte se vira contra nós nem o cinema é retroativo para quem invoca o seu nome. Por exemplo, um filme explicado por palavras é sempre um filme explicado por palavras; um filme que trate um problema é um filme não é um problema; em Voando sobre um ninho de cucus, filme de Milos Forman, o filme trata alguns problemas sociais, mas é parte da solução.




